Espaço histórico e recém-reformado, o CineTeatro Marco Camarote abriu as portas para a prova pública da Oficina Básico de Teatro, montagem de "Mãe Coragem e Seus Filhos" reuniu o público e lideranças culturais do Agreste e da Zona da Mata.
por Luiz Pereira Neto
Há algo de mágico quando um teatro histórico acende suas luzes para ver nascer uma nova safra de artistas. Na de ontem, as luzes se acenderam e a cena cultural da Zona da Mata de Pernambuco viveu um daqueles momentos que ficam gravados na memória. O recém-reformado CineTeatro Marco Camarote, em Paudalho, esteve de casa cheia para celebrar a estreia pública do espetáculo “Mãe Coragem e Seus Filhos”, trabalho que marcou a conclusão do Curso Básico de Teatro do município, um processo desenvolvido ao longo de 04 meses.
A atmosfera dentro da casa de espetáculos não poderia ser mais vibrante. Sob a coordenação e a direção precisa do ator e produtor cultural José Eudes, os novos talentos não entregaram apenas um exercício de encerramento de curso, mas um espetáculo de apuro estético impressionante. A plástica da montagem fisgou o público do primeiro ao último minuto, digo: da areia que cobria o solo trazendo a textura do chão batido, aos grids posicionados diagonalmente a mostra da plateia para marcar uma iluminação estratégica que desenhava o espaço e o elenco executava canções ao vivo, trazendo alma e ritmo à cena.
O acontecimento atraiu não só o público, mas familiares e autoridades local. A Federação de Teatro de Pernambuco marcou presença com o seu vice-presidente, Luiz Pereira Neto. Da cidade vizinha de Limoeiro, o ator e produtor Radhameis Môura acompanhou a celebração representando a Companhia de Eventos Lionarte. A noite contou ainda com a acolhida da Superintendente do CineTeatro, Ângela Cahú, e do Secretário de Cultura e Turismo, João Batista.
Mais do que prestigiar a turma, a presença da Cia. Lionarte e da FETEAPE simbolizou a reafirmação de um laço construído a muitas mãos. Desde o início da década de 1991, os municípios de Limoeiro e Paudalho mantêm uma conexão histórica no movimento teatral, impulsionada pela troca entre grupos tradicionais como a própria Lionarte e o grupo Paun'arte. Ver o palco de Paudalho renovado e ocupado por uma nova geração de atores reacende a chama de que a descentralização da arte não é apenas um desejo, mas uma realidade pulsante no Agreste e na Zona da Mata.
Quanto ao espetáculo, “Mãe Coragem e Seus Filhos” como escolha para uma prova pública de formação não é tarefa simples, e o grupo encarou a missão com rigor. Escrita em 1939 pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que um dos nomes mais revolucionários do teatro mundial, a obra é considerada o ápice do chamado Teatro Épico.
A trama se passa no contexto devastador da Guerra dos Trinta Anos (1618–1648) e gira em torno de Anna Fierling, a "Mãe Coragem". Ela é uma negociante ambulante que percorre os campos de batalha puxando sua carroça cheia de mercadorias para vender aos soldados. O grande nó dramático da história é a própria contradição de Coragem: para sustentar seus três filhos (Eilif, Queijo-de-Sopa e a jovem muda Kattrin), ela precisa desesperadamente que a guerra continue para manter seu comércio. No entanto, a mesma engrenagem bélica da qual ela tenta lucrar acaba engolindo a vida de seus filhos, um a um.
No entanto, ver atores iniciantes encarando a densidade teórica e emocional de Brecht com tanta entrega é a prova definitiva da qualidade técnica e artística que germina fora dos grandes centros urbanos. Vale destacar em meio a tudo isso, que a presença da FETEAPE prestigiando a estreia, reforça uma premissa fundamental, reforçada e implementada pela instituição desde a década de 80, que que o fazer teatral no interior pernambucano carrega garra, pesquisa e uma apurada consciência de cena.
Ao final do espetáculo, os aplausos de pé demorados que ecoaram pelo CineTeatro Marco Camarote não foram apenas para a entrega dos alunos-atores ou para a beleza visual da iluminação e do cenário. Foram também aplausos para a resistência cultural. Paudalho provou que seu teatro está mais vivo do que nunca, e o palco, felizmente, continua sendo o melhor lugar para contar as nossas histórias.



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